
O querubim cobridor não estava satisfeito com a posição que ocupava. Assistir na própria presença de Deus não lhe era suficiente. Em seus projetos pessoais ainda faltava alguma coisa. Almejava ainda mais. Ser grande, talvez o maior entre seus iguais, não o satisfazia. Em sua pretensão, planejou tomar de assalto o “monte da congregação” (Is 14:13), o lugar da morada de Deus, onde era adorado antes da entrada do pecado, e onde também aconteciam as reuniões da assembléia celestial (como a mencionada em Jó), e o lugar da guerra cósmica. No texto de Isaías, o querubim é identificado como a “estrela da manhã”, que conduziu sua rebelião na esfera celestial e, como conseqüência, foi expulso do Céu, à semelhança do relato de Ezequiel.
O que pretendia o querubim cobridor, a estrela da manhã? “Eu subirei ao Céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (v. 13, 14). Observe a ocorrência do pronome pessoal “EU” – cinco vezes: “EU subirei”, “EU exaltarei”, “EU assentarei”, “EU subirei”, “EU serei”. Ser semelhante ao Altíssimo, exaltação de um trono, assentar-se no monte da congregação... Todas essas referências apontam para o desejo de auto-exaltação de um ser originalmente sem pecado: posição, poder e glória. Em suma, pretendia usurpar a posição de Deus. Ezequiel 28:15 afirma que nele foi encontrada “iniqüidade”, ou “maldade” (NVI). Essa palavra no Antigo Testamento pode ser usada para representar duplicidade, ambição profana, mentira, apostasia. Ezequiel também disse: “Seu coração tornou-se orgulhoso” [Heb. gabah, ‘ser elevado’, ‘ser exaltado’ (Ez 28:17, NVI)]. Ser orgulhoso inclui imaginar-se maior do que realmente se é, ou considerar-se superior aos outros. Também pode levar a um comportamento que ignora a vontade de Deus (Sl 10:4; Jr 13:15) e que se opõe ao próprio Deus (Ez 28:2). Pode-se facilmente concluir que o querubim caído estava sendo desleal a Deus, atacando-O, dizendo mentiras e agindo de maneira enganosa.
Na tentação conduzida no Éden, Satanás apresentou aquilo que ele mesmo ambicionara: ser como Deus (Gn 3:5). Utilizando argumentos bem elaborados, apresentou um quadro desfavorável de Deus, retratando-O como egoísta, que procurava reter para Si somente o que de melhor havia, sob o disfarce de um interesse pelos seres humanos. Dessa forma, enganou Eva, e o pecado foi introduzido no mundo. (Estamos nós duvidando dos propósitos de Deus para nossa vida? Confiamos em Sua Palavra? Moldamos nossa vida segundo o que Ele nos revelou? Ou, como Eva, estamos seguindo as sugestões do inimigo?)
Essa mesma atitude satânica seria assumida pelo poder político-religioso simbolizado na profecia de Daniel como um “chifre pequeno” (Dn 8). Nesse capítulo, o chifre pequeno, em sua carreira e auto-exaltação, “cresceu até atingir o exército dos Céus;... sim, engrandeceu-se até ao Príncipe do exército [ou seja, Jesus]; dEle tirou o sacrifício diário [isto é, o ministério que Jesus conduz no santuário celestial em favor de Seus fiéis],... por causa das transgressões [o chifre agiu de forma transgressora contra Jesus]; e deitou por terra a verdade [a verdade acerca do santuário, do ministério de Cristo, etc.]” (Dn 8:10-12). Resumindo, o poder político-religioso simbolizado pelo chifre pequeno estabeleceu neste mundo um sistema rival de salvação, desviando o olhar dos pecadores do verdadeiro Sumo-sacerdote, que conduz Seu ministério no santuário celestial em favor da humanidade. Neste caso, o chifre não passa de um representante de Satanás em sua contínua controvérsia com o Céu, manifestando as mesmas características de ambição, poder e exaltação.
Contraste o desejo de Satanás com a afirmação de Paulo de que Cristo, “subsistindo em forma de Deus [ou seja, possuindo características essenciais e atributos de Deus], não julgou [i.e., considerou] como usurpação o ser igual a Deus [ou, continuar existindo em igualdade com Deus]; antes a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo... a Si mesmo Se humilhou... até a morte” (Fp 2:6-8).
“Houvesse na verdade Lúcifer desejado ser semelhante ao Altíssimo, e nunca teria perdido o lugar que lhe fora designado no Céu; pois o espírito do Altíssimo manifesta-se em abnegado ministério. Lúcifer desejava o poder de Deus, mas não o Seu caráter” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 435.
É correto desejar ser como Deus? Pela citação de Ellen G. White , sim: ser como Deus em caráter e abnegado ministério.
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